segunda-feira, 15 de junho de 2015

Dez minutos no metro...

Não andava de metro há muito tempo. Antes, que era rotina, ia desatenta e aborrecida, senão adormecida – desta vez não.
Entraram os dois, meio na conversa, meio envergonhados. Colegas do ensino básico que agora, grandinhos, já na secundária, se reencontraram por aí. Ela gira, gira, gira, a simpatia de quem sabe que é mesmo gira e que não há quem não veja isso. Ele um garanhão daqueles que conhecemos todas na secundária, cabelo todo em pé, a maniazinha inocente à flor da pele.
“Estás uma mulher, tu! Cresceste!”, e brilhavam-lhe os olhos.
“Tu também! Quantos anos tens agora?”
“Já tenho 18! Já tenho carro! Gostei mesmo de te encontrar...”, e chegava-se a ela como quem lhe vai tocar, mas não toca.
“A sério? Que bom! Também gostei de te ver!”, envergonhada, pois, e com um anel no anelar direito, daqueles grossos, prateados, que gritam “sim, sim, sou uma adolescente apaixonada e comprometida”.
Toca o telefone, o dele.
“Oh, deve ser a inglesa...”
“Então?”
“Conheci uma inglesa, ali no Martim Moniz”
“E “comestesa”?
“Ah, ah, ah, pois…!”
“A sério?!”
“São fáceis! É tão fácil que… fácil, fácil, fácil. Assim!” e estala os dedos. Ela ri-se e ruboriza. Ele fica tão orgulhoso e seguro de si que desta vez consegue mesmo dar-lhe uma palmadinha na perna. E ela ri-se e ruboriza. E cobre a cara com a mão do anelar com o anel.
“Tenho que sair aqui”, diz ela
“Gostei mesmo de te ver!”
“E eu a ti…”
“Liga-me! Vamos beber um café! Tens o meu número, não tens?”, os olhos a brilhar de novo.
“Tenho… Eu ligo! Adeus!”
“Adeus.”
E ficámos ali os dois, eu e o garanhão de 18 anos, com mais borbulhas que barba e aquela confiança que enjoa, de tão teen, de tão inocente, de tão boa.
 
Não sei se foi mais a nostalgia, a vergonha alheia, o eu-já-passei-por-isto ou a compaixão ou sei lá o que mais, mas de alguma maneira este casalinho levou-me a atenção durante um bom bocado. Sem conclusões, desta vez, que a parte gira é o que nos ocorre, a cada um individualmente, quando ouvimos estas histórias. É só uma história. Desta vez. E se calhar estou mesmo a ficar velha.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Obrigada pela tarde, Madrid.

O sol envergonhado, que mal apareceu, não impediu a gente de encher a cidade. Músicos de rua com guitarras e trompetes e microfones. Engravatados de bibicleta e muita gargalhada. E muitos copos. Sorrisos oferecidos na rua, que deve ser coisa que só turista (ou alentejano, no Alentejo) vê - vi-os hoje, várias vezes, e bem que me souberam! O jantar, esse, pronto: para comer e beber, não há como Portugal. Tenho dito. O churros com chocolate fazem parte doutra história. De resto: parques, museus, palácios, sim, mas o que me fica é a música, a alegria, a energia mais latina, mais explosiva, mais aberta, as vozes, as gargalhadas mais altas. Obrigada pela tarde, Madrid.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

nem mais nem menos.

Há momentos, recordações, ideias, planos, histórias e pessoas - principalmente, especialmente, sempre as pessoas - que fazem isto tudo valer a pena. Mais, bem mais que isso: tornam isto tudo bom com'ó caraças. Assim mesmo.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Ai, Lisboa

Tenho uma confissão, Lisboa: quase te deixei. Quase, quase. E hoje, quando acordei de novo em ti, com a tua luz, quando passei de novo pelo teu rio, quando vi de novo a tua gente, senti o teu cheiro, as tuas varandas, a tua calçada, o teu sotaque, o teu sabor... hoje, que já é tão óbvio e certo ficar, hoje parece-me ridícula a simples intenção de me ir. E hoje apreciei-te melhor, e hoje sorri-te mais, hoje valorizei-te ainda mais, porque quase, quase te perdi. 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Coisinhas pequeninas.

O Neil Pasricha passou por uma fase menos agradável na vida e, para se entreter, criou um blogue: 1000awesomethings.com. E depois lançou um livro com o conteúdo do blogue. E depois começou a dar palestras sobre felicidade.  Sim, o rapaz que começou o blogue, em primeira instância, por estar deprimido. Duas coisas a reter; um, fake it until you make it, que é também o meu cliché favorito, de momento, e tão verdadeiro como todos os outros clichés que conheço; dois, a importância das pequenas coisas: aquelas quase ridículas que às vezes nem notamos, ou notamos mas não valorizamos, ou valorizamos mas não lembramos. Uma lista de coisas boas é uma boa lista. E muitas vezes não é preciso mais que um pequeno sorriso para nos mudar o dia. 
Conheci esta história há uns dias, entre um conjunto de TEDs que tinha para ver, e guardei-a. Havia de chegar o dia em que me apeteceria falar dela e fazer a minha própria lista de (pequenas) coisas fantásticas. Tinha que ser um dia especialmente mau, por um motivo ou outro, porque entendo pelo histórico que é essa a primeira inspiração, se a necessidade provoca inspiração. Chegou o dia, e eis a minha lista, em primeira mão. Há-de ser espontânea porque não pensei nela antes, e é por isso que há-de ser verdadeira.

Ver o rio, todos os dias, a caminho do trabalho. O primeiro semáforo da ribeira das naus, um cigarro e a smooth fm alto e bom som. Quando está sol, sempre que está sol, tiro uma fotografia e termino os filtros no último semáforo do terreiro do paço.
Contar a toda a gente que fui ao ginásio antes do trabalho. Vale quase tanto como, de facto, conseguir ir ao ginásio antes do trabalho.
Abrir uma garrafa de vinho e passar a madrugada a ver séries no sofá.
Música: há músicas que me fazem sempre sorrir. My Way. Imagine. Tantas. Principalmente quando não as espero, fazem-me sempre sorrir.
Os abraços, qualquer abraço desejado.
Adormecer a ler.
Acordar de um sonho bom, voltar a adormecer, e continuar a sonhar: com o mesmo.
Comer uma tablete de chocolate, inteira, chocolate com amêndoas. Ou colheres de sopa de Nutella. Sem culpa.
Passar o Domingo de pijama.
Bebés. Pegar-lhes ao colo, fazê-los rir, adormecê-los. Todos os bebés.
Uma tarde de confidências com as amigas.
O último check, na última tarefa do dia.
Dançar uma noite inteira, tanto que doem os pés e mal consigo subir as escadas de casa.
Estacionar em frente a casa, durante a semana, quando chego do trabalho. (Só entende quem mora no centro de Lisboa, sem garagem.)
Ir ao cinema, com pipocas e snickers que duram a primeira parte inteira.
Encontrar dinheiro em bolsos de casacos guardados.
Quando percebem que emagreci.
Beijos nas bochechas.
Fazer planos. Ainda que impensáveis, irrealizáveis, fazer planos é a primeira das satisfações.
O reconhecimento no trabalho. A palmadinha nas costas.
Rir, rir sem motivo durante horas, rir por rir, por ver rir, por fazer rir.
Fazer pequenos almoços enormes e ficar a comer e a conversar até à hora de almoço.
Passear de mão dada.
Praia de inverno. Correr na areia, de botas, com sol e frio.
Uma tarde de cocktails numa esplanada.
Encontrar os ferrero rocher que escondo no Natal. E comer todos.
Conseguir arrumar a casa. E a roupa. Toda! E perceber que está tudo feito e que não poderia fazer mais nada e que portanto mereço descansar.
Quebrar paradigmas, a mim e aos outros.
Pintar as unhas à noite e acordar sem marcas dos lençóis.
Coincidências.
Filmes que fazem chorar, de tão bonitos. É quando começamos a sentir arranhar na garganta que sabemos que aquelas duas horas valeram a pena.
Comer castanhas na Baixa no primeiro dia de frio.
Clichés. Sim, clichés.
Conhecer pessoas. Não à primeira, mas conhecer mesmo. Quando chega aquele momento em que, de facto, se conhece alguém. 
Conduzir, por conduzir, sem destino. Parar quando me apetece parar e ir conduzindo, por aí.
A inspiração para escrever.
Acordar com o sol a brilhar lá fora.
Almoçar fora.
O dia em que recebo o ordenado e vejo o meu saldo corrente a quatro dígitos. Normalmente é só um dia. Mas vale a pena.
Ler o expresso sentada na Estrela, num banco de jardim, uma manhã inteira de Verão. 
Café com gelo e limão.
Andar à chuva, quando chove tanto que só se pode desistir de evitar apanhar uma molha... e a molha nos diverte.
Mimo. Muito mimo. Sentir-me pequenina, de tanto mimo.
Um sábado inteiro de compras. Quando chegam os saldos.
O Natal! O Ano Novo! O São Valentim! O meu aniversário!  O Dia da Mulher! Todas as datas que possam ser comemoradas.
Surpresas.
Um restaurante novo.
Sobremesas.
Dançar no carro ao som da Cidade no final do dia.
A areia no carro depois de um fim de semana  de praia.
O cheiro da roupa lavada.
Poesia, da boa. Pessoa. 
Recordar, acompanhada.
Sessões de fotografias, muitas fotografias, e chegar a casa e ver todas durante horas.
... ... ...

E sinto que podia continuar indefinidamente. Escrever um livro, até, talvez. E estas coisinhas pequenas, pequeninas, estes clichés, hábitos, satisfações, pequenas sortes... apenas saber que fazem parte de mim e da minha vida, apenas escrevê-las, tornou-me hoje, agora, bem mais feliz.

domingo, 9 de novembro de 2014

Bocadinhos de carinho

Uma música, um filme, um passeio, aquela ponte, aquele restaurante, uma expressão engraçada, um passeio, um carro, um livro, aquela citação, um paradigma quebrado, um vestido especial, uma cor, aquela forma de sorrir, uma piada, uma dança, uma história sem sentido, aquela vista, aquela praia, aquele vinho.

Quem passa pela nossa vida deixa um bocadinho de si e leva um bocadinho de nós. Os bocadinhos que nos deixam, depois de passar a saudade, são bocadinhos de carinho que ficam para sempre. Podemos esquecer as pessoas e os sentimentos que tivemos por elas, podemos esquecer os sonhos todos que criámos juntos, podemos já não saber a ordem e o porquê das coisas, podemos esquecer todos os momentos. Mas sorrimos sempre que ouvimos aquela música, sempre que vestimos aquele vestido, sempre que nos falam daquele livro. Chega um dia em podemos até já não saber o que faz aquela dança especial, mas sorrimos com ela. Estes bocadinhos de carinho foram-nos entregues e são nossos, sempre.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Os Comandos do Amor e a nossa leveza

Há uns tempos li uma reportagem sobre os "Comandos do Amor" uma organização que conta com mais de um milhão de voluntários e que actua na Índia, tendo por objectivo proteger casais apaixonados que escolhem ficar juntos contra a vontade dos pais.
Parece simples, mas não é: estes casais têm que abandonar a sua família e abrigar-se em refúgios para escapar às ameaças de morte dos próprios pais - tudo por amor. E é um processo tão, tão comum que existe uma organização e mais de um milhão de pessoas que dedicam parte da sua vida a protegê-los.

Avançando: não é sobre a cultura de castas, casamentos e educação que prevalece na Índia que me apetece divagar. É sobre o amor.
Na verdade, deste lado do Mundo, onde este nosso amor é tão livre que não parece merecer-nos nem lágrimas nem suor nem dores de cabeça, uma história destas tem o seu quê de conto-de-fadas.
Um amigo tentou convencer-me que o fruto proibido também é o mais apetecido para estes casais, e talvez por isso lutem tanto, não por amor mas por desafio - por independência, pelo marcar de uma posição. Talvez. Prefiro pensar que não, prefiro acreditar que de facto ainda existem, no mesmo Mundo que eu, pessoas que realmente amam, de verdade, que vivem e morrem por amor.
Desde lado do Mundo, onde o amor é tão leve que se torna tão insustentável, esta visão de um amor verdadeiro e pesado, intenso e perigoso, mais importante que qualquer outra coisa, oferece-nos a magia que precisamos para continuar a acreditar... no amor.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Uma coisa estranhíssima.

Crescer é uma "coisa" estranhíssima. Olhando para trás, tenho tanta certeza que não me revejo (no sentido de não me reconhecer, hoje, como igual ao que fui) como sei que sou o resultado disso tudo que tenho sido, de há 24 anos para cá.
Tenho uma vantagem: sempre escrevi tudo e sobre tudo e de vez em quando dá-me para reler. Reler essa paixão toda, a ansiedade, os receios, os planos, as lágrimas, os sonhos e os olhares que significavam tanto, é hoje ler uma história bonita que não parece pertencer-me verdadeiramente a mim. As cartas de amor mais antigas já não me fazem chorar nem ruborizar - não me aceleram o coração, confortam-no com a lembrança desses amores que me parecem hoje leves e bonitos, ainda que não saiba dizer com clareza porque começaram ou terminaram. Os planos que tinha, a Carina que imaginava que chegaria a ser, os interesses que me consumiam, a forma como ocupava o meu tempo, aquilo e aqueles que me causavam saudade, tudo isso é hoje uma história - às vezes ridícula, às vezes linda, às vezes dramática. É a minha história e, ainda assim, ou por isso mesmo, apenas uma história.
Conforta-me saber que vivi com intensidade isso tudo que vivi. E conforta-me, ainda um pouco mais, este distanciamento que o tempo faz acontecer, mais que tudo porque é o distanciamento que acontecerá daqui a mais algum tempo em relação ao dia de hoje e de amanhã - o bom e o mau. 

Sempre gostei da palavra relativizar. Tem assumido significados ligeiramente distintos à medida que o tempo passa. Hoje, o que vejo é que tempo nos permite e ensina a relativizar e a maturidade chega exactamente com o tamanho do embrulho que conseguimos relativizar. Há-de ser por isso que os mais velhos são mais sábios. E arriscam menos. A intensidade daquilo que sentimos e o risco que nos dispomos a correr por aquilo que queremos diminui à medida que a serenidade aumenta. Não será uma coisa má. É crescer, apenas.
Na verdade, o essencial fica! E também isso é estranhíssimo. A maneira como vejo o que realmente importa, aquilo que valorizo, o primeiro impulso, tudo isso continua estranhamente semelhante. Não procuro as coisas nos mesmos sítios nem da mesma forma, mas no fundo as coisas que procuro não diferem tanto assim.

E... hoje, como ontem, continuo a gostar de escrever sobre o amor, sobre o tempo, sobre clichés e sobre as pessoas. Lamechices. Estranhíssimo!

*

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

O Zé



O que me assusta é o Zé, que ficou desempregado, deixou a mulher e os filhos para não ser um estorvo, dorme num armazém abandonado por aí e tudo o que pediu foram meias. Lavadas, das fofinhas.

Na verdade, assusta-me esse desespero - esse desespero a sério, que não tem a ver com aquilo que queremos e não podemos ter. Ainda. O que me assusta é o que não queremos. Quando não queremos. Quando já não queremos o que quer que seja porque já não nos desespera o querer,  o querer querer alguma coisa mais. O Zé não quer, e há muitos como ele. Isso assusta-me.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Relativizando.

16 anos. Lembro-me de ter a certeza - tão mais certeza que hoje! - que era super adulta, autónoma e que a minha personalidade estava formada. Lembro-me de chorar por amor (?!) e de desesperar com as burbulhas e com as gordurinhas. Não tenho saudades da adolescência.

Malala escreveu que via a Betty Feia e sonhava como seria viver uma vida em que a moda e as paixões e a forma do cabelo ao acordar são verdadeiras preocupações.

Não tenho qualquer ilusão quanto a ser de modo algum possível comparar as nossas adolescências com a vida dessa heroína que bem poderia ter ganho o Nobel da Paz e que dedica a sua vida - literalmente - à causa da educação das meninas. Nem tenho intenção de vulgarizar ou ridicularizar estas nossas vidas de chatices e cabeleireiros, salários e casamentos, paixões e viagens e revistas de moda - também é a minha vida e tenciono vivê-la e valorizá-la tanto quanto possa. Mas não há como não relativizar um pouco estas vidas quando alguém como Malala, essa menina de 16 anos, toma como uma hipótese de alegria tão distante e remota o sonho de viver esta realidade e estes problemas que vivemos.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Ninguém disse que era fácil


Vou generalizar.
(E talvez não faça muito sentido.)

Vivemos rodeados de preconceitos, de pessoas com ideais pré-concebidos que nos predefinem e moldam. Nós somos essas pessoas. Nascemos e aprendemos o que é certo e errado. Não devemos dizer asneiras nem mentir, não devemos desobedecer aos nossos pais, a vingança é feia e assume-se que o bom senso é geral e uniforme. Não devemos sair da mesa sem pedir licença, é feio espirrar alto em público, as mulheres devem ser bonitas e cuidadas. Respeitamos os mais velhos e o "tu" só aparece com autorização prévia. Por algum motivo chamamos "pessoas de bem" a quem tem mais dinheiro que a média e assumimos bem como "bem", literalmente, com toda essa conotação automática positiva que conhecemos, vá-se lá saber porquê. Sabemos que devemos casar, conservadoramente devemos casar com alguém do sexo oposto, devemos casar para a vida, ter filhos e educá-los tão bem ou melhor do que os nossos pais nos educaram a nós. Os mesmos valores e princípios. O que conta é a amizade e o respeito. Devemos poupar e fazer algo pela sociedade. São moralmente permitidas mais saídas da casca aos homens que às mulheres, em todas as áreas - é assim, toda a gente sabe que é assim. Devemos ser simpáticos, calmos, ter objectivos claros e ser consistentes ao longo da vida. Devemos gostar de ler bons livros e ver bons filmes, é bem visto que estejamos a par das notícias e que tenhamos viajado o suficiente para ter histórias para contar. Em suma, devemos ter uma vida estável - tão estável quanto possível - poucos esperam mais que isso de nós e para nós.

A verdade é que a maioria dos momentos mais felizes das nossas vidas, de todos nós, são oriundos ou causadores de uma regra quebrada, um paradigma alterado, um erro cometido. E a verdade é que são os objectivos impossiveis e os sonhos utópicos e as paixões arrebatadoras que nos fazem saltar (e não arrastarmo-nos) da cama todos os dias e ter vontade de viver - sim, esses que deixam a estabilidade para segundo plano, esses que nos fazem arriscar tudo e que têm uma probabilidade tão pequena de correr bem. A verdade é que a vida vale a pena pela busca desses objectivos, sonhos e paixões. A verdade é que precisamos de genuinidade, espontaneidade e muita coragem para conseguir ir atrás desses objectivos, sonhos e paixões. Sejam eles quais forem. E a verdade é que o Mundo (nós?) não nos facilita a vida.

Bem... na verdade, ninguém disse que era fácil.


quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Cliché?

Queremos tudo. As piroseiras todas! Queremos rosas vermelhas, queremos que nos abram a porta do carro, queremos jantar à luz das velas e receber cartas de amor. Queremos andar de mão dada e queremos comemorar todas as datas possíveis. Queremos tudo. Desde quando o cliché é algo a evitar? Queremos tudo quanto é cliché.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Um ano de suor

Passou um ano desde que crei este blog. Bom, talvez não um ano a sério, um ano lectivo. Criei este blog para falar sobre o meu mestrado, para partilhar o que ia aprendendo e conhecendo e fazendo. Não o fiz. Entretanto, aprendi muito. Aprendi de tudo: ética, estratégia, contabilidade, finanças, gestão de marcas. Foi um ano de suor, de noites mal dormidas, de muito esforço e de muito tempo livre deixado para depois. Devo muitas horas à minha almofada, é um facto. Devo muitos cafés aos meus amigos. Muitas visitas à minha família. Devo até muita dedicação ao meu trabalho. Seja como for, como em tudo na vida, o mais importante foram e são as pessoas. Mais que temas académicos, conheci amigos e, se cheguei ao final com alguma sanidade mental, foi graças a eles. Estudámos juntos, trabalhámos em grupo, fomos consultores, empreendedores, amigos. Saímos, jantámos, bebemos, zangámo-nos e fizémos as pazes, preocupámo-nos uns com os outros, fomos sinceros, conhecemo-nos a sério, durante meses, todas as sextas, todos os sábados, todos os dias. Hoje sinto saudades dos e-mails de bom dia do Jaime e das mensagens da Sónia quando me atrasava para as aulas. Dos ataques de riso a meio da aula. Do cigarrinho com a Luísa nos intervalos. Dos e-mails do professor Crespo. Do nosso presidente Amerali. E da Raquel e do Nuno, sempre prontos para mais uma noitada (não de estudo...). Das caras de sono do Nuno Mendes. Dos toalhetes Renova que usava na aula para me acordar a mim e a metade (mais!) da turma. E de tudo, e de todos. É um facto, já estávamos todos muito saturados do estudo e uns dos outros, quando acabámos... mas a verdade é que vou sentir muitas, muitas saudades. Saudades boas porque são boas as recordações que ficaram. Sei que muitas amizades vão ficar para sempre, e sei que se não fosse o suor, as noites mal dormidas, as discussões e o tempo livre que todos perdemos, estas amizades não existiriam. Portanto, e resumindo, foi um grande ano. E tudo valeu a pena. Um grande obrigada a todos! :)

domingo, 31 de março de 2013

Acredita.



Olhas para trás e percebes que o tempo passa. És adulta. Já não é tão fácil emagrecer, descobres o significado de “pneuzinho” e as rugas começam a aparecer à volta dos olhos. Consegues relativizar factos e sentimentos porque já viveste e sentiste e sofreste o suficiente para saberes fazê-lo. Não te apetece maquilhar-te tanto e os saltos altos ficam para os dias especiais porque, de facto, já és uma mulher e não há mais nada a provar a ninguém. Estás por tua conta. Tens contas para pagar e o saldo bancário tem que andar controlado. Deixou de haver adiantamentos de mesada. Moras sozinha.  Sabes que o casamento está mais perto a cada dia e os filhos também. E, embora não percebas como podes ter tempo para tudo, a verdade é que arranjas. Queres e vais arranjar. Os miúdos tratam-te por senhora e os funcionários públicos também. Podes usar baton vermelho ao jantar e dominas assuntos suficientes para manter uma conversa com a maioria das pessoas. A partir de agora, só cresces para os lados e é a altura certa para dizer “basta!” aos doces e aos cigarros. Tens que lutar pelo que queres porque ninguém dá nada a ninguém. Tens horários para cumprir, objectivos para realizar. És uma sortuda, trabalhas no que gostas e as oportunidades vão surgindo. Cativaste pessoas, ao longo da vida, e és responsável por um bocadinho de cada uma delas. Tens família, tens amigos – talvez até mais do que aqueles que imaginas. Tens a tua casa e as tuas coisas e és a única responsável por elas. És adulta, és uma mulher e – acredita! – há muito mais coisas boas nisso do que aquelas com que contas na maioria do tempo. És tu quem decide como aproveitá-las.

Vais errar muitas vezes. Vais ter dúvidas muitas vezes e vais querer desistir muitas mais vezes ainda. Vais ter vontade de fugir e recomeçar num Mundo novo. Vais chorar, vais magoar os outros e ser magoada por quem menos esperas muitas, muitas vezes e, acredita, nunca vais habituar-te a isto. Vais sentir-te sozinha e desejar que alguém tome decisões por ti, te aconselhe, decida e se responsabilize por ti. Vais aprender com aquilo que fazes, de bem e de mal.

Mas... sabes que mais? Vais aprender todos os dias. Vais conhecer pessoas maravilhosos. Viajar para lugares que nem imaginas que existem. Ser uma profissional de excepção, fazer aquilo que gostas todos os dias. Vais casar de Louboutin, ter uma festa na praia e 500 convidados que vão estar lá para te ver feliz. Vais construir a tua família, ter filhos. Um casal lindo, que te vai dar tantas alegrias como dores de cabeça e que vais amar de uma forma que hoje nem imaginas possível. Vais amar muito. Vais ser amada e haverá sempre, sempre alguém que seria capaz de dar a vida por ti. Vais sorrir muito. Perceber quem serão os teus amigos de sempre e para sempre e aproveitar a vida com eles. Vais descobrir quem és, mais um bocadinho todos os dias, e vais revelar-te a quem o merecer. Vais saber o que queres e o que te faz feliz. Vais viver. Ser a Mulher mais feliz do Mundo!

sábado, 30 de março de 2013

Um desafio novo.

Emprego novo. Surpresa, curiosidade, motivação. Colegas novos, clientes novos, um mercado novo, um local novo, uma função nova, uma rotina nova. Nada como a adrenalina de um novo desafio!

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Os mínimos

O 773 chegou com 20 minutos de atraso - não é invulgar. Entrei e cumprimentei o motorista, como de costume. A diferença, hoje, deu-se quando um dos passageiros perguntou se havia alterações no trajecto devido à manifestação (confesso que nem sabia que estava prevista mais uma manifestação). O motorista disse-lhe que sim e, quando o senhor pediu para o deixar no próximo cruzamento, ele respondeu-lhe que não podia: só na próxima paragem. O passageiro indignou-se porque não tinha sido de forma alguma avisado da alteração de percurso antes do autocarro estar em andamento, e porque a volta que teria que dar lhe causaria transtorno. E a verdade é que teve razão. Não fomos informados de nenhuma alteração de percurso e não temos obrigação de saber datas e horas e locais de manifestações, muito menos de adivinhar que o trajecto normal de determinado transporte público é afectado. Esta é apenas mais uma história que evidencia a nossa cultura de trabalho: fazemos os mínimos. Há-de haver muitas outras, talvez melhores e muitas vezes com consequências mais sérias. O motorista não fez nada errado, a verdade é essa... limitou-se a fazer o seu trabalho, aquilo para que lhe pagam: cumpriu as regras e fez os mínimos.
E é aqui que quero chegar. A minha intenção não é julgar o pouco agradecimento dos sortudos que têm um emprego, muito menos questionar se Deus dá, ou não, nozes a quem não tem dentes. Até porque acredito muito mais em mérito que em sorte ou mesmo em dádivas divinas. Não quero sequer pegar nas consequências de produtividade e crescimento ou de carreira pessoal que estas escolhas acarretam. O meu ponto é constatar que, efectivamente, a grande maioria de nós se limita a fazer os mínimos: porque é para isso que nos pagam, e não para mais, ou porque na realidade não gostamos do que fazemos ou nos consideramos demasiado bons, ou maus, para as tarefas que são esperadas de nós. A verdade é que podemos sempre mudar, ou tentar mudar, aquilo que não gostamos na nossa vida, seja em que área for, porque não somos obrigados a (quase) nada. E aquilo que escolhemos ou temos que fazer, seja por que motivo for, traz-nos sempre mais prazer se for feito com vontade e com empenho. E, portanto, não encontro justificação para não ir além das regras e dos mínimos. Simplesmente porque, seja de que perspectiva for, não tem lógica: nem nos sentimos melhor ou mais realizados, nem fazemos bem a ninguém, nem existe empregador que nos promova ou beneficie por falta de motivação e de brio.
O motorista podia ter-nos dito, em duas ou três palavras, que o percurso normal seria alterado. Nós teríamos agradecido a atenção e o ambiente durante a meia hora que durou a viagem seria de simpatia em vez de indignação. A curto prazo, ele não ganhava nada senão apreciação... mas a verdade é que não há quem não goste de ser apreciado. No fim do dia, chegávamos todos mas felizes a casa. E é isso que importa.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Não vos vou contar nada de novo, mas apetece-me desabafar

Sinto-me quase na obrigação de escrever qualquer coisa sobre a austeridade. A verdade é que não posso escrever muito, porque não sei muito. Melhor, poder posso, mas não quero. Tenho perdido a paciência para me manter informada porque as más notícias não me motivam. E acima de tudo porque, e envergonho-me por isto, até agora ainda não percebi que raio posso, ou podemos, fazer para melhorar as coisas. 
A verdade é que só pensei em formar uma visão económica das coisas quando entrei na Nova, e desde aí que me considero bastante liberal, embora muito comedida no que respeita às causas sociais, principalmente àquelas que me são mais especiais. É por isto que não tenho espírito político mas de eterna estudante. Enfim. Sempre que me lembro de ter entrado em discussões sobre economia e, mais recentemente, sobre a crise e sobre a austeridade, foi para defender as medidas de poupança, contenção e essencialmente um grande ajustamento estrutural de que o país precisa há décadas. Pelo bem comum, porque é o todo que interessa. A verdade é que isto não tem ajudado. Ou talvez ajudasse se fosse bem feito - como, não sei. E já não fico tão indiferente como ficava às manifestações ali ao fundo, na Assembleia. Já não me apetece ir para lá apenas fotografar os ânimos exaltados em que não me revejo (e que, na verdade, até invejo). Ultimamente, não tenho conseguido evitar a compaixão pelos casos individuais, pelas famílias, pelas crianças que parecem não ter futuro por cá. Tem-se tornado difícil conviver com as notícias do dia-a-dia. Há cada vez mais sem-abrigo nas ruas. As lojas fecham, os cafés fecham, as liquidações que anteriormente eram uma belíssima oportunidade para fazer compras, hoje tornaram-se o prato do dia e, sinceramente, entristecem-me. 
Sempre pensei que isto ia correr bem, que íamos sofrer um bocado e que para o ano as coisas começavam a entrar nos eixos. Ingenuidade? Confortava-me a fé profunda na honestidade do Passos Coelho, na genialidade do Vítor Gaspar, na humildade e no saber do Álvaro. O Álvaro que, ao que parece, está quase de volta ao Canadá. 
Tenho estado demasiado confortável para decidir agitar a cabeça e pensar no assunto. Porque custa! Custa formar uma opinião fundamentada, dá trabalho assumi-la e defendê-la e não tenho tido a mínima inspiração. Ou vontade, que a inspiração vem por consequência da vontade. Tenho estado demasiado sensível às pessoas, aos casos, às histórias para conseguir afastar-me e pensar solidamente no assunto. Não me tem apetecido, mas vai ter que acontecer. Não porque só por mim consiga acrescentar muito, mas porque é uma reflexão que me faz falta. E faz falta ao país a reflexão de todos. Faz-nos falta a nós! Porque o país somos nós e integrar-nos nesta história, no problema e na solução - em vez de deixarmos para os outros as culpas e os méritos (e o trabalho) - é o primeiro passo para um caminho mais certo e literalmente mais feliz.


segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Aprender a Girar

Há muito tempo que planeio começar um blogue. O dia de hoje foi a gotinha de água que me faltava.
Hoje foi dia de apresentação dos Mestrados Executivos do Iscte. Parece mentira, mas estou mesmo inscrita. Vou mesmo começar!

Enfim, vamos ao que interessa. A apresentação foi comum - discurso do presidente, testemunhos de antigos alunos, apresentação dos programas. No final, porém, tivemos uma surpresa: o Miguel Monteiro. Segundo o presidente, a história do Miguel representaria um símbolo daquilo em que a Escola acredita, daquilo a que quer ser associada - a motivação, a persistência, o sucesso. 

Pois bem, o Miguel Monteiro é um rapaz de 35 anos, paraplégico desde os 21. Sofreu um acidente que o deixou numa cadeira de rodas para sempre. "Como se não bastasse", como ele próprio diz, passado pouco tempo ficou cego. O Miguel está, contudo (felizmente e para alegria de todos os que têm a honra de poder ouvi-lo falar), no pleno das suas capacidades mentais e emocionais - acredito, até, que estas se tenham apurado de uma forma que seria impossível numa vida diferente.
Contou-nos que o seu maior sonho (realizado, à data) era concluir a Licenciatura no Iscte. E explicou-nos, ponto por ponto, como conseguiu estudar, memorizar, estar presente nas aulas, ser o aluno de 18 que foi. Contou-nos que o conhecimento o motiva acima de tudo o resto porque o torna mais interessado e interessante. Os amigos dizem que há poucos que consigam falar de forma tão informada e sobre assuntos de um leque tão abrangente como o faz o Miguel. Acredito piamente neles! 

Falou e emocionou-nos. Nunca fiz parte de uma salva de palmas tão forte! Quero acreditar que ele pode sentir o orgulho de todos os presentes, porque merece-o. Quanto a mim, chorei que nem uma desalmada porque me revoltam as injustiças mas, acima de tudo, porque nada me comove como a força. Mas o que o Miguel quer, e o que o Miguel merece, é que partilhemos do sorriso dele. Alegria pela mudança, pela adaptação, pela motivação, pelo conhecimento e pela vida.
Gosto de pensar que as pessoas são feitas das experiências que vão vivendo e da forma que as vivem. Das escolhas que fazem, porque há sempre escolha e, no final, são essas escolhas que contam e nos definem. 

O Miguel saturou-se de ouvir dizer que o Mundo dá muitas voltas. Se assim é, só temos que aprender a girar. Uma lição de vida. Obrigada, Miguel. Obrigada, Iscte.