terça-feira, 19 de agosto de 2014

Os Comandos do Amor e a nossa leveza

Há uns tempos li uma reportagem sobre os "Comandos do Amor" uma organização que conta com mais de um milhão de voluntários e que actua na Índia, tendo por objectivo proteger casais apaixonados que escolhem ficar juntos contra a vontade dos pais.
Parece simples, mas não é: estes casais têm que abandonar a sua família e abrigar-se em refúgios para escapar às ameaças de morte dos próprios pais - tudo por amor. E é um processo tão, tão comum que existe uma organização e mais de um milhão de pessoas que dedicam parte da sua vida a protegê-los.

Avançando: não é sobre a cultura de castas, casamentos e educação que prevalece na Índia que me apetece divagar. É sobre o amor.
Na verdade, deste lado do Mundo, onde este nosso amor é tão livre que não parece merecer-nos nem lágrimas nem suor nem dores de cabeça, uma história destas tem o seu quê de conto-de-fadas.
Um amigo tentou convencer-me que o fruto proibido também é o mais apetecido para estes casais, e talvez por isso lutem tanto, não por amor mas por desafio - por independência, pelo marcar de uma posição. Talvez. Prefiro pensar que não, prefiro acreditar que de facto ainda existem, no mesmo Mundo que eu, pessoas que realmente amam, de verdade, que vivem e morrem por amor.
Desde lado do Mundo, onde o amor é tão leve que se torna tão insustentável, esta visão de um amor verdadeiro e pesado, intenso e perigoso, mais importante que qualquer outra coisa, oferece-nos a magia que precisamos para continuar a acreditar... no amor.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Uma coisa estranhíssima.

Crescer é uma "coisa" estranhíssima. Olhando para trás, tenho tanta certeza que não me revejo (no sentido de não me reconhecer, hoje, como igual ao que fui) como sei que sou o resultado disso tudo que tenho sido, de há 24 anos para cá.
Tenho uma vantagem: sempre escrevi tudo e sobre tudo e de vez em quando dá-me para reler. Reler essa paixão toda, a ansiedade, os receios, os planos, as lágrimas, os sonhos e os olhares que significavam tanto, é hoje ler uma história bonita que não parece pertencer-me verdadeiramente a mim. As cartas de amor mais antigas já não me fazem chorar nem ruborizar - não me aceleram o coração, confortam-no com a lembrança desses amores que me parecem hoje leves e bonitos, ainda que não saiba dizer com clareza porque começaram ou terminaram. Os planos que tinha, a Carina que imaginava que chegaria a ser, os interesses que me consumiam, a forma como ocupava o meu tempo, aquilo e aqueles que me causavam saudade, tudo isso é hoje uma história - às vezes ridícula, às vezes linda, às vezes dramática. É a minha história e, ainda assim, ou por isso mesmo, apenas uma história.
Conforta-me saber que vivi com intensidade isso tudo que vivi. E conforta-me, ainda um pouco mais, este distanciamento que o tempo faz acontecer, mais que tudo porque é o distanciamento que acontecerá daqui a mais algum tempo em relação ao dia de hoje e de amanhã - o bom e o mau. 

Sempre gostei da palavra relativizar. Tem assumido significados ligeiramente distintos à medida que o tempo passa. Hoje, o que vejo é que tempo nos permite e ensina a relativizar e a maturidade chega exactamente com o tamanho do embrulho que conseguimos relativizar. Há-de ser por isso que os mais velhos são mais sábios. E arriscam menos. A intensidade daquilo que sentimos e o risco que nos dispomos a correr por aquilo que queremos diminui à medida que a serenidade aumenta. Não será uma coisa má. É crescer, apenas.
Na verdade, o essencial fica! E também isso é estranhíssimo. A maneira como vejo o que realmente importa, aquilo que valorizo, o primeiro impulso, tudo isso continua estranhamente semelhante. Não procuro as coisas nos mesmos sítios nem da mesma forma, mas no fundo as coisas que procuro não diferem tanto assim.

E... hoje, como ontem, continuo a gostar de escrever sobre o amor, sobre o tempo, sobre clichés e sobre as pessoas. Lamechices. Estranhíssimo!

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quarta-feira, 30 de outubro de 2013

O Zé



O que me assusta é o Zé, que ficou desempregado, deixou a mulher e os filhos para não ser um estorvo, dorme num armazém abandonado por aí e tudo o que pediu foram meias. Lavadas, das fofinhas.

Na verdade, assusta-me esse desespero - esse desespero a sério, que não tem a ver com aquilo que queremos e não podemos ter. Ainda. O que me assusta é o que não queremos. Quando não queremos. Quando já não queremos o que quer que seja porque já não nos desespera o querer,  o querer querer alguma coisa mais. O Zé não quer, e há muitos como ele. Isso assusta-me.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Relativizando.

16 anos. Lembro-me de ter a certeza - tão mais certeza que hoje! - que era super adulta, autónoma e que a minha personalidade estava formada. Lembro-me de chorar por amor (?!) e de desesperar com as burbulhas e com as gordurinhas. Não tenho saudades da adolescência.

Malala escreveu que via a Betty Feia e sonhava como seria viver uma vida em que a moda e as paixões e a forma do cabelo ao acordar são verdadeiras preocupações.

Não tenho qualquer ilusão quanto a ser de modo algum possível comparar as nossas adolescências com a vida dessa heroína que bem poderia ter ganho o Nobel da Paz e que dedica a sua vida - literalmente - à causa da educação das meninas. Nem tenho intenção de vulgarizar ou ridicularizar estas nossas vidas de chatices e cabeleireiros, salários e casamentos, paixões e viagens e revistas de moda - também é a minha vida e tenciono vivê-la e valorizá-la tanto quanto possa. Mas não há como não relativizar um pouco estas vidas quando alguém como Malala, essa menina de 16 anos, toma como uma hipótese de alegria tão distante e remota o sonho de viver esta realidade e estes problemas que vivemos.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Ninguém disse que era fácil


Vou generalizar.
(E talvez não faça muito sentido.)

Vivemos rodeados de preconceitos, de pessoas com ideais pré-concebidos que nos predefinem e moldam. Nós somos essas pessoas. Nascemos e aprendemos o que é certo e errado. Não devemos dizer asneiras nem mentir, não devemos desobedecer aos nossos pais, a vingança é feia e assume-se que o bom senso é geral e uniforme. Não devemos sair da mesa sem pedir licença, é feio espirrar alto em público, as mulheres devem ser bonitas e cuidadas. Respeitamos os mais velhos e o "tu" só aparece com autorização prévia. Por algum motivo chamamos "pessoas de bem" a quem tem mais dinheiro que a média e assumimos bem como "bem", literalmente, com toda essa conotação automática positiva que conhecemos, vá-se lá saber porquê. Sabemos que devemos casar, conservadoramente devemos casar com alguém do sexo oposto, devemos casar para a vida, ter filhos e educá-los tão bem ou melhor do que os nossos pais nos educaram a nós. Os mesmos valores e princípios. O que conta é a amizade e o respeito. Devemos poupar e fazer algo pela sociedade. São moralmente permitidas mais saídas da casca aos homens que às mulheres, em todas as áreas - é assim, toda a gente sabe que é assim. Devemos ser simpáticos, calmos, ter objectivos claros e ser consistentes ao longo da vida. Devemos gostar de ler bons livros e ver bons filmes, é bem visto que estejamos a par das notícias e que tenhamos viajado o suficiente para ter histórias para contar. Em suma, devemos ter uma vida estável - tão estável quanto possível - poucos esperam mais que isso de nós e para nós.

A verdade é que a maioria dos momentos mais felizes das nossas vidas, de todos nós, são oriundos ou causadores de uma regra quebrada, um paradigma alterado, um erro cometido. E a verdade é que são os objectivos impossiveis e os sonhos utópicos e as paixões arrebatadoras que nos fazem saltar (e não arrastarmo-nos) da cama todos os dias e ter vontade de viver - sim, esses que deixam a estabilidade para segundo plano, esses que nos fazem arriscar tudo e que têm uma probabilidade tão pequena de correr bem. A verdade é que a vida vale a pena pela busca desses objectivos, sonhos e paixões. A verdade é que precisamos de genuinidade, espontaneidade e muita coragem para conseguir ir atrás desses objectivos, sonhos e paixões. Sejam eles quais forem. E a verdade é que o Mundo (nós?) não nos facilita a vida.

Bem... na verdade, ninguém disse que era fácil.


quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Cliché?

Queremos tudo. As piroseiras todas! Queremos rosas vermelhas, queremos que nos abram a porta do carro, queremos jantar à luz das velas e receber cartas de amor. Queremos andar de mão dada e queremos comemorar todas as datas possíveis. Queremos tudo. Desde quando o cliché é algo a evitar? Queremos tudo quanto é cliché.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Um ano de suor

Passou um ano desde que crei este blog. Bom, talvez não um ano a sério, um ano lectivo. Criei este blog para falar sobre o meu mestrado, para partilhar o que ia aprendendo e conhecendo e fazendo. Não o fiz. Entretanto, aprendi muito. Aprendi de tudo: ética, estratégia, contabilidade, finanças, gestão de marcas. Foi um ano de suor, de noites mal dormidas, de muito esforço e de muito tempo livre deixado para depois. Devo muitas horas à minha almofada, é um facto. Devo muitos cafés aos meus amigos. Muitas visitas à minha família. Devo até muita dedicação ao meu trabalho. Seja como for, como em tudo na vida, o mais importante foram e são as pessoas. Mais que temas académicos, conheci amigos e, se cheguei ao final com alguma sanidade mental, foi graças a eles. Estudámos juntos, trabalhámos em grupo, fomos consultores, empreendedores, amigos. Saímos, jantámos, bebemos, zangámo-nos e fizémos as pazes, preocupámo-nos uns com os outros, fomos sinceros, conhecemo-nos a sério, durante meses, todas as sextas, todos os sábados, todos os dias. Hoje sinto saudades dos e-mails de bom dia do Jaime e das mensagens da Sónia quando me atrasava para as aulas. Dos ataques de riso a meio da aula. Do cigarrinho com a Luísa nos intervalos. Dos e-mails do professor Crespo. Do nosso presidente Amerali. E da Raquel e do Nuno, sempre prontos para mais uma noitada (não de estudo...). Das caras de sono do Nuno Mendes. Dos toalhetes Renova que usava na aula para me acordar a mim e a metade (mais!) da turma. E de tudo, e de todos. É um facto, já estávamos todos muito saturados do estudo e uns dos outros, quando acabámos... mas a verdade é que vou sentir muitas, muitas saudades. Saudades boas porque são boas as recordações que ficaram. Sei que muitas amizades vão ficar para sempre, e sei que se não fosse o suor, as noites mal dormidas, as discussões e o tempo livre que todos perdemos, estas amizades não existiriam. Portanto, e resumindo, foi um grande ano. E tudo valeu a pena. Um grande obrigada a todos! :)